sábado, 3 de novembro de 2012

A arte de ser feliz 
Houve um tempo em que minha janela se abria 
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. 
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. 





Cecília Mireles

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Saudade

Quero um trem para a saudade
Um trítono incomodando a música européia de câmara
quero a escala heptatônica que não pode chegar ao fim
Minha burca de volta
Meus pára-quedas enluarado
Quero sementes de morfina pra quando a dor chegar
quero aproveitar o sol para quando a chuva cair
Sair nela chupando os artifícios do ar cheio de metais
E do metal precioso que um si bemol desafiador
Quero a afinação em Lá
Pois lá chegaremos com impulso gravitacional
quero sonhar com seus lábios de boca maior que meus sonhos
Não quero sua língua afiada em português clássico
Quero 'uai', 'talvez, meu filho', quero um beijo assassino de graça
Tantas trapaças que o tempo te dá
E peças que os destilados deslizantes de veneno calam
Quero a morte e a vida num brilhante dueto
Quero o seco, a economia de segredos, a poesia escarnada
A ordem mítica das canções modais
o erro plácido da noção de juízo
o Medo ácido do ruído nas músicas de câmara
Isso é física e matemática, brother
isso é espécie humana em movimento acelerado
hematomas, hemorroidas e cansaço...só pra escutar balela
Um poema antigo de Burroughs
Um mapa novo das mentiras que não disse
Mandei meus poemas pra bela moça
Ela tem de tê-los para quando eu não mais for entre vós
Abra a janela dos sentidos e vem ver o que me matou
Foi ao jogar call of duty sem capacete apropriado
Quero um uníssono para o sono e um ônibus pra saudade
Hoje o curral está aberto, as vacas serão marcadas a ferro e fogo
Não quero mais essa prisão
E agora sei tudo sobre o que quero
Só me resta querer.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Essência

Murcha a flor
Fica a essência.
Vai a dor
Permanece a
Lembrança,
Insistente.
O sorriso desmaia.
O riso se expande,
Insano.
Clama urgência,
Pra não se morrer
De amor...
Amor e flor,
Fica a essência!

por:: Suzete Torres





segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sonho primaveril

O vento se amorna 
O céu se empoeira
As folham caem...

A chama interna
Da primavera já
Se manifesta...

Estação colorida,
Qual um festival
Em tons de terracota
Aliada aos infindos.

O silêncio se impõe
Mas não há como!
As flores dançam,
Os corações saltitam

Sucessora do inverno,
Faz sua ronda costumeira
Folheando a vida
Salpicando brilho...

Não há de ficar indiferente,
À paisagem nova, promissora.
Há de sonhar belos sonhos,
Sem coragem de dizer que é
Fantasia.....

autoria:: Suzete Torres


domingo, 2 de setembro de 2012

Ensaio

Cada dia, uma esperança nova,
E assim...cada mês , cada ano.
Eis-me aqui, sem talento algum
Tentar escrever alguma coisa
Que me revele ou que desvele
O véu já roto, empoeirado e
Desgastado que disfarçou
Dores e dissabores, horrores
E espantos, risos e lágrimas.
De um sobrecomum esfôrço
Quero extrair da alma, uma
Centelha, mesmo que derradeira,
Que propague em vertiginosa chama,
O verbo esquecido, a sentença com sentido.
E, consentido o brilho, pego carona com
Essa primavera....sem promessas!


autoria:: Suzete Torres




quinta-feira, 5 de julho de 2012

Andeja

Entre laços, nós e desenlaces
Fui trilhando meu caminho...
Deixei impresso, o meu suor
Na tinta fresca do universo

Como pássaros que anseiam
Por uma tarde florida, fui
Amassando a vida pra
Encontrar canteiros...

Andei por vazias plataformas,
Exasperei, chorei...
Fiei meus sonhos em fantasia,
E como um novelo se fez

Tanto se perdeu na teia do
Tempo! Mas ficou invicta
A alma...nas beiradas do
Mundo hei de encontrar muitas flores"!


por;;Suzete Torres

sábado, 30 de junho de 2012

De passagem....

De passagem eu fui sua,
Não só vestida, como nua
Doei minh´alma à sua,
Como o céu para a lua.

Hoje, concedo a honra
Ao seu corpo esvanecido
De tocar em silêncio, a
Minha vida, sem a sua

É tempo de colher o que
Há em meu ser...
Não tenho culpa, querido
Que a lua não é mais sua!
                                                                   

                                                             Suzete Torres